CARTA PARA GARCIA
*Este texto é baseado em artigo publicado por Elbert Hubbard
em 1899 e foi adaptado em 2007 por Juanribe Pagliarin.
Até bem pouco tempo atrás, Cuba era uma colônia espanhola. A proximidade da Ilha com Miami, aliada ao ainda perigoso poderio bélico da Espanha, fazia com que os Estados Unidos temessem pela integridade de seu território. A tensão entre a velha potência européia e a nascente potência do Novo Mundo crescia a cada dia.
Os americanos defendiam em fóruns mundiais a independência de Cuba, enquanto, preventivamente, mantinham sua esquadra militar em permanente estado de vigilância. Porém, em 1898, o navio militar USS Maine foi afundado nas proximidades de Havana. Os americanos, convencidos de que o navio havia sido sabotado pelos espanhóis, exigiram que a Espanha dali se retirasse e concedesse a independência à Ilha. A recusa dos espanhóis deu início a um conflito que ficou conhecido como a Guerra Hispano-Americana.
Rebeldes cubanos, interessados na independência do País, uniram-se às forças americanas para expulsar os dominadores espanhóis. O líder máximo dos rebeldes era o General Calixto Garcia Iñinguez, com quem o então Presidente americano, William Mckinley, precisava urgentemente se comunicar. Mas ninguém sabia em que floresta ou montanha de Cuba o General Garcia se encontrava. A comunicação por telégrafo era impossível. A única maneira de lhe passar a estratégia de guerra era enviar uma carta através de um único agente americano. Foi quando alguém do Estado Maior disse:
- Senhor Presidente, se há alguém neste mundo capaz de levar esta carta ao Comandante Garcia, este alguém é Rowan.
O Presidente mandou chamá-lo e entregou-lhe a “Carta para Garcia”.
Rowan pegou a carta, guardou-a em uma bolsa impermeável junto ao peito, e retirou-se.
Quatro noites depois, Rowan estava desembarcando em uma praia deserta de Cuba e embrenhou-se, sozinho, pela mata fechada. Atravessou a ilha a pé e, três dias depois, estava entregando, em mãos, a “Carta para Garcia”.
É evidente os perigos que enfrentou, as picadas de insetos, o desconforto da missão, o risco de cair e morrer nas mãos das tropas inimigas. Mas não é este o ponto que quero ressaltar. O que todos nós temos que olhar é a atitude de Rowan. Pois, por ela, merecia uma estátua de bronze em cada praça, em cada escola, em cada empresa, em cada universidade, em cada organização pública e privada. E a sua história, da qual não ficou quase nada, deveria ser contada para todas as gerações, até ao fim dos tempos.
E este é o ponto: ao receber a ordem de entregar a “Carta para Garcia”, Rowan perguntou onde ele estava. Responderam-lhe:
- Em Cuba, em lugar incerto e não sabido.
Rowan não ficou perguntando: “E agora?”. “Como vou achá-lo?”. “O que devo fazer?”. “Sem o endereço é impossível localizá-lo”.
Rowan tão-somente meteu a carta junto ao peito e saiu para cumprir a missão. Não enrolou, não deu desculpas, não perdeu tempo, não alegou dificuldades, não pediu dinheiro, não quis saber o que ganharia com aquilo. Tampouco se viu tentado a jogar a “Carta para Garcia” na primeira vala que encontrasse. Foi e fez o que tinha que ser feito, sem perda de tempo.
É de homens como Rowan que todas as organizações no mundo estão precisando!
Quer depurar os profissionais na sua organização? Quer saber se eles trabalham contra ou a favor? Se apenas cumprem uma obrigação enfadonha em troca de um salário combinado ou se estão comprometidos com o futuro da organização? Então, faça o seguinte teste:
Imprima este texto e coloque dentro de um envelope bem fechado. Escreva na frente: “Carta para Garcia”. Chame qualquer pessoa à sua volta. E lhe entregue o envelope.
Como Rowan ele perguntará o endereço. E como o Presidente McKinley diga: “Nesta cidade, em endereço incerto e não sabido”. E veja se as semelhanças continuarão ou terminarão por aí. Se a pessoa que você chamou lançar aquele olhar de “não estou entendendo”, e parecer perdida, tenha paciência e aguarde mais um pouco. Veja se ela vai sair e se virar. Ou se vai começar a dizer:
“Se você não me der o endereço não tem como”.
“Lamento, mas estou muito ocupado”.
“Eu não fui contratado para entregar cartas”.
“Por que você não manda o boy ou o motorista?”.
Caso ela lhe devolva o envelope ou diga com petulância “Por que você mesmo não a entrega?”, mande-a abrir o envelope e ler a carta. Você mesmo acabou de entregar a “Carta para Garcia”.
O desprezo pelas pequenas tarefas, a debilidade de vontade, a falta de colaboração, a má disposição para agir, a incapacidade de tomar iniciativas, a negligência, a falta de compromisso com os objetivos da organização estão fazendo com que muitas “Cartas para Garcia” sejam extraviadas no meio do caminho.
Os que são comprometidos envelhecem precocemente, enquanto tentam, em vão, fazer com que seus colaboradores continuem trabalhando mesmo quando não tem ninguém olhando. Porque nestas verdadeiras “horas de privacidade” durante o expediente é que muitos empregados podem colocar em dia as longas conversas no MSN, mandar scraps à legião de amigos e fâs no Orkut e até planar no Second Life.
A verdade é que, em todas as organizações, os que não entendem a urgência e a importância de se entregar a “Carta para Garcia” estão sendo substituídos. Continuarão a engrossar a fila dos que se declaram desprovidos e injustiçados, e que precisam do serviço social deste país, “onde”, segundo eles, “poucos privilegiados têm oportunidades”. Transformaram-se em vítimas do sistema que eles mesmos criaram e mantêm a custos elevadíssimos: suas próprias misérias. São poços profundos, que transbordam de descontentamento, e até sensibilizam a parte rica da nação. Porém, ninguém se atreve a lhes dar um emprego, porque, quando contratados, preocupam-se apenas com a contagem regressiva do horário de trabalho e com o dia de pagamento. E que o pagamento não atrase, “porque têm compromissos importantíssimos”.
Somente os homens de boa vontade é que são os bem-aventurados. Por isso, não vamos esquecer aqueles empreendedores – quer sejam empregados, empresários, profissionais liberais, comerciantes, donas de casa, aposentados, autônomos – que conseguem ir além das forças e possibilidades para cumprir pequenas e grandes missões, cujas horas de trabalho não se limitam a quarenta por semana, nem a um horário fixo, e cujos cabelos vão ficando brancos prematuramente – ou caem – durante a incansável luta contra a indiferença, a negligência, a ineficiência e a ingratidão, porque, sem eles, haveria muito mais gente com fome e sem casa.
É duro este texto? Talvez. Mas desejo dedicar uma palavra de agradecimento e apreço aos empregados e patrões que, apesar dos obstáculos diários, não medem esforços para entregar a “Carta para Garcia”. E que, depois de cumprir com êxito a missão, descobrem, sem espanto ou lamúria, que quase nada lhes sobrou. E mesmo assim não se frustram, não desanimam e nem desistem, porque são empreendedores por vocação.
Estes jamais precisarão suplicar por trabalho ou aumento de salário, porque nada lhes será negado. Jamais precisarão fazer uma greve ou demonstrar descontentamento, porque a organização precisa e deles não abre mão. Tudo quanto um empreendedor deste pedir, ser-lhe-á concedido.
O sucesso está com o empregado e com o patrão que executa bem a sua missão, estejam olhando ou não.
A fortuna está com a pessoa que, ao receber a “Carta para Garcia” a coloca junto do peito, em embalagem impermeável, para que nunca se perca, e chegue logo ao seu destino.
A força está com aquele que não pensa em se livrar da “Carta para Garcia” no primeiro bueiro que encontrar, mas que, dia e noite, não pensa em outra coisa senão em cumprir satisfatoriamente a sua missão.
O Mundo procura avidamente por homens como Rowan. As empresas e organizações, grandes ou pequenas, clamam desesperadamente para que se apresentem. Porque há, ainda, muitas “Cartas para Garcia” acumuladas e são poucos os que estão dispostos a entregá-las...




















